
Foto: José Cruz/Agência Brasil
Em um relatório com as alegações finais enviado ao Supremo
Tribunal Federal (STF), a Procuradoria-Geral da República (PGR) pede a
condenação de oficiais da Polícia Militar do Distrito Federal por suposta
omissão em relação aos atentados de 8 de Janeiro. O órgão ministerial afirma
que os integrantes da cúpula da corporação à época tratavam de um plano para
impedir a permanência no poder do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que
tinha acabado de tomar posse.
O documento está no gabinete do ministro Alexandre de
Moraes, relator do inquérito que investiga os ataques contra as sedes dos Três
Poderes, em Brasília, ocorridos no começo de 2023. O Ministério Público também
requer a perda da função pública dos acusados e afirma que eles compartilharam
informações falsas sobre fraude nas urnas e que sabiam da possibilidade elevada
de que ocorressem atentados em locais críticos da capital federal, como a
Esplanada dos Ministérios e o Setor de Combustíveis e Inflamáveis.
"Como indicado na denúncia, nos dias que antecederam o
segundo turno da eleição presidencial de 2022, teorias conspiratórias sobre
fraudes eleitorais e vulnerabilidade das urnas eletrônicas passaram a ser
difundidas massivamente em redes sociais e aplicativos de comunicação
instantânea, gerando clima social de polarização político-ideológica e de
desconfiança nas instituições republicanas", diz um trecho do relatório.
"Os denunciados, integrantes de cúpula da Polícia
Militar do Distrito Federal, às vésperas das eleições de 2022 e especialmente
depois do pleito, aderiram à difusão de informações falsas, trocaram arquivos
com conteúdo inverídico sobre fraudes eleitorais e trataram sobre possíveis
meios ilegais para impedir a permanência do presidente legitimamente eleito,
conforme comprovam extensamente os relatórios que instruem a denúncia",
completa a PGR.
O documento afirma que a omissão de oficiais e demais
integrantes da corporação favoreceu a invasão do Congresso Nacional, do Palácio
do Planalto e do STF, que tiveram vidraças quebradas, obras de arte
vandalizadas e estruturas elétricas e hidráulicas destruídas. No caso do
Supremo, até mesmo o plenário da Corte teve cadeiras arrancadas, microfones,
câmeras e sistemas de fornecimento de energia e água atacados. Poltronas
utilizadas pelos magistrados durante as sessões do plenário foram jogadas para
a parte externa do prédio. Além disso, a PMDF levantou, um dia antes dos
ataques, que 84 ônibus tinham entrado em Brasília, com 5,5 mil pessoas que
ficaram na Praça dos Cristais, no Setor Militar Urbano, preparados para o
confronto. Carros disfarçados da corporação circularam pela capital do dia 4 ao
dia 7, registrando eventual preparação para invasão de órgãos públicos, plano
para atingir os prédios e efetuar um golpe de Estado.
A PGR pede a condenação do coronel Fábio Augusto Vieira, ex-comandante-geral
da corporação; coronel Klepter Rosa Gonçalves, ex-subcomandante da PMDF;
coronel Jorge Eduardo Naime Barreto, ex-comandante do Departamento de
Operações; coronel Paulo José Ferreira de Souza Bezerra, que atuava no
Departamento de Operações no dia 8 de Janeiro; coronel Marcelo Casimiro
Vasconcelos Rodrigues, ex-comandante do 1º Comando de Policiamento Regional;
além do tenente Rafael Pereira Martins e do major Flávio Silvestre de Alencar.
O Ministério Público acusa os policiais pelos crimes de
tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de
Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio da
União, deterioração do patrimônio tombado, violação de deveres previstos na Lei
Orgânica da PMDF e violação de dever contratual.
"O conjunto probatório reunido, especialmente os
diversos diálogos, relatórios, imagens, depoimentos, documentos e alertas,
indica, com elevado grau de profundidade, a ciência prévia dos denunciados
sobre o caráter violento dos anunciados atos antidemocráticos de 8 de
janeiro", destaca um trecho do relatório.
Para a Procuradoria, as investigações indicam "a
proposital omissão quanto ao emprego de efetivo necessário da Polícia Militar
para resguardar a segurança e impedir os atos de depredação às sedes dos Três
Poderes, não esboçando medidas concretas aptas a impedir a destruição do
patrimônio da União". A fase de alegações finais é uma das últimas no
processo, antes que o caso seja julgado pelo plenário do Tribunal.
Em nota, a defesa de Paulo José Ferreira de Souza Bezerra,
representada pelos advogados Alexandre Collares, Claudia Cozer e Nilson José
Franco Júnior, afirmou que "recebe com consternação a peça acusatória da
PGR", que "ignora o relatório minucioso da Polícia Federal acerca da
responsabilidade da SSP/DF em não difundir o relatório 6 de inteligência à
PMDF, ignora também a Doutrina Nacional de Inteligência em Segurança Pública
(Dnisp), além de ignorar inúmeros documentos colacionados no processo". Os
defensores sustentam ainda que a acusação não considera a hierarquia e a
disciplina da corporação, e diz que o cliente "é o único dos oficiais réus
que não consta no relatório de alinhamento ideológico da PGR e nem atuação
político-partidária que justificasse uma omissão dolosa".
Os demais réus ou suas defesas não se manifestaram.
Correio Braziliense